
Desde que assumiu a presidência da maior potência mundial, Barack Obama não teve descanso. Embalado pela popularidade de início de mandato, conseguiu fazer a reforma no sistema de saúde e reajustar o cambaleante mercado financeiro. No entanto, as medidas reformistas do governo americano que estancaram a crise econômica não tiveram êxito no crescimento do país.
O desemprego e a renda estagnados fizeram a popularidade de Obama despencar e o reflexo veio com a eleição da maioria Republicana na Câmara dos Deputados, o que obrigará o presidente a negociar com a oposição. A virada política dos Estados Unidos chega a tal ponto que a popularidade de Obama é tecnicamente igual a de George W. Bush: 47% a 45% respectivamente. Um fenômeno político ultra-liberal chamado Tea Party surgiu e embalou a mudança. O Partido do Chá, na tradução literal, é uma referência ao caso da alta tributação que os ingleses impunham ao chá e que motivou a Guerra da Independência. Na mesma semana em que os democratas perderam as eleições parlamentares, o Banco Central dos Estados Unidos (FED) anunciou que injetará 600 bilhões de dólares no mercado internacional nos próximos meses. A medida provocou reações no mundo inteiro e deverá ser um dos focos da reunião do G20 nos próximos dias.
Talvez seja difícil compreender o momento histórico, mas o fato é que estamos no olho de um furacão que está mudando a história global. O liberalismo e a globalização pregados pelos Estados Unidos fortaleceram a sua economia por décadas, mas também as das nações que antes eram relegadas a um segundo plano no cenário mundial. Após a queda do comunismo entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90 criou-se no mundo uma espécie de "Pax Americana", em que os Estados Unidos passaram a ser voz única na liderança da economia e da cultura global. No entanto a realidade alterou-se consideravelmente nos anos 2000. Enquanto o mundo cresceu a passos largos, os EUA se endividaram ao gastar trilhões de dólares na bolha da internet no ano 2000, no 11 de setembro de 2001, nas guerras do Afeganistão e do Iraque, e, finalmente, na crise financeira que iniciou em 2008 e persiste até hoje.
O grande desafio dos próximos meses, talvez anos, é pacificar o mercado das moedas. Um dos vilões é a China, que apesar da crescente abertura, ainda não é possível dizer que é uma economia de mercado. Lá, o governo controla a cotação da moeda e a mantém artificialmente desvalorizada para baratear os seus produtos no exterior. Para os chineses está sendo ótimo, mas vários países estão vendo suas indústrias falirem por não terem como competir com eles. Na outra ponta da economia, o dólar está se desvalorizando em virtude da inundação de moeda por todo o mundo. O problema se agrava pois este é justamente o objetivo do atual governo. Ao desvalorizar a moeda, Obama facilita as exportações e aumenta a geração de empregos. Meses atrás foi lançado um plano ambicioso de dobrar as vendas dos EUA ao exterior em apenas 5 anos.
E onde entra o Brasil no novo cenário econômico mundial? Se nada mudar em breve, seremos protagonistas da especulação, da rentabilidade e da desindustrialização. O maior parceiro comercial do Brasil é a China, que compra 40% do nosso minério de ferro e inunda as prateleiras das nossas lojas e supermercados com produtos industrializados nem sempre de boa qualidade. Para piorar a situação, a desvalorização do dólar prejudica não apenas a exportação para os EUA, mas para o mundo inteiro. A cotação da moeda americana despencou aqui não apenas pelo incentivo do governo de lá, mas pelo incentivo do governo daqui também. O país paga as maiores taxas de juros do mundo para quem deixar seus dólares aqui pois só assim o governo consegue financiar a dívida. O Brasil está cada vez mais dependente da venda de commodities, ou seja, minério, agricultura e petróleo. Concomitantemente o setor industrial, que é aquele que vende produtos com alto valor agregado e gera mais riquezas ao país, lida com alta carga tributária e câmbio extremamente desfavorável. Se o Brasil quiser ter um crescimento sustentável nas próximas décadas para entrar no grupo das nações desenvolvidas, fortes ajustes econômicos terão que ser feitos. Do jeito que está, o atual ciclo de crescimento não passará de um vôo de galinha.
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